Não tenho culpa de ter nascido assim, com alma de escritor - mesmo sem nada escrever. É que escritor tem esse jeito de se engraçar na tristeza, se entranhar na dor e se encontrar nesse modo alegre de sofrer.
O que é que há, é que há alma em demasia. A alma que transborda e a gente esquece por aí, nas ruas, nas esquinas, no trem. Mas assim é que essa gente metida a dramaturgo de mesa de bar se entende, se encontra - no sorriso machucado, no cigarro auto-destrutivo, com amores baratos, beijos vendidos.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Vestígios

Saindo de casa tive a sensação de que tinha esquecido algo - como muitas vezes já aconteceu, não só comigo. Eu estava saindo de casa como quem saí de uma antiga vida. E é engraçado ter essa sensação com restos que deixamos no passado. É quando, pela primeira vez, usamos do abandono, de fato, sem saber o seu significado e suas intermináveis consequências.
Inocentemente, escolhi a inocência para ser a minha primeira órfã. Assim como outros vestígios meus que ficaram pelos caminhos. Hoje, sou uma má formação de mãe. Daquelas que largaram seu pedaço mais humano por aí. A minha cria restrita a passagem de ida. À deriva dos corações atentos e dos olhos dispersos.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Chuva.
"Dormiu ao relento desejando não acordar na manhã seguinte" - Essas frases que aparecem estampadas para que os nossos olhos leiam, para que os meus olhos leiam em algum momento, me fazem intrigas.
Por todos os tempos em que tudo pareceu tão sem sentido quanto a minha respiração, que eu via cada vez mais sem sentido para mim e para o resto do mundo. Eu tive a chuva como a minha companheira, a minha amante fiel, minha confidente, minha puta, durante muitas noites em que nada fazia sentido - exceto ela.
E todas essas noites eu me perguntava, até quando eu vou permitir a falta de sentido, até mesmo onde não procuro sentindo algum.
Por mais relutante que fosse respirar naquelas noites, por mais esforço que eu fizera por não deixar o meu organismo viver, não sustentar os meus póros, tampouco as minhas células com qualquer elemento que pudesse me dar vida, fazer meu coração bater mais forte e fazer eu me sentir eu, toda vez que a água respingava na minha janela, algo me dizia que talvez esse fosse o sentido das coisas.
Eu nunca me deixei viver, de fato. Em cada relutância que eu tinha comigo mesma, em cada esquivada do meu espelho pessoal, cada desculpa que eu dava para mim em não aceitar o que eu me permiti tornar, eu fazia da minha existência a circunstância mais sem sentido que eu já pudera sentir.
E foi na calma - que só a chuva soube me dar - que eu aprendi a empilhar meus medos. E sobretudo, a raiva de mim. Aprendi o sentido de viver o que se é, e não o que se pode ser.
Por todos os tempos em que tudo pareceu tão sem sentido quanto a minha respiração, que eu via cada vez mais sem sentido para mim e para o resto do mundo. Eu tive a chuva como a minha companheira, a minha amante fiel, minha confidente, minha puta, durante muitas noites em que nada fazia sentido - exceto ela.
E todas essas noites eu me perguntava, até quando eu vou permitir a falta de sentido, até mesmo onde não procuro sentindo algum.
Por mais relutante que fosse respirar naquelas noites, por mais esforço que eu fizera por não deixar o meu organismo viver, não sustentar os meus póros, tampouco as minhas células com qualquer elemento que pudesse me dar vida, fazer meu coração bater mais forte e fazer eu me sentir eu, toda vez que a água respingava na minha janela, algo me dizia que talvez esse fosse o sentido das coisas.
Eu nunca me deixei viver, de fato. Em cada relutância que eu tinha comigo mesma, em cada esquivada do meu espelho pessoal, cada desculpa que eu dava para mim em não aceitar o que eu me permiti tornar, eu fazia da minha existência a circunstância mais sem sentido que eu já pudera sentir.
E foi na calma - que só a chuva soube me dar - que eu aprendi a empilhar meus medos. E sobretudo, a raiva de mim. Aprendi o sentido de viver o que se é, e não o que se pode ser.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Chovendo.
Não há chuva no céu de secas eternas. Há água que cai. E como não atinar essa delicada ousadia das gotas de água? Em um leve impasse, desprendem-se de todo o conjunto para cair no deslize do ar. E assistindo às gotas caírem como se caí uma folha, penso que assim como elas, posso eu também ser livre. Mesmo que a liberdade seja efêmera. Como a água que caí do céu, caindo suavemente dentro de mim, antes mesmo que possa cair em solo, e pertencer à raízes, à carnes, aos mares.
domingo, 24 de outubro de 2010
Mims.
Aceitei me sentar perto daquela pessoa que eu não conhecia ao certo. E olhando nos seus olhos, também aceitei contar-lhe a minha vida. Meus medos. Meus desejos. Minhas saudades. Era uma pessoa como qualquer outra, mas reconfortante. Não a conhecia muito bem, mas me completou. E conversamos, e nos tocamos.
Nos entendemos, e ela me disse frases de visionários - "A vida é feita de orgulho e incosciência". Falou por mim. Alguém, além dela, falou por mim. Na incosciência estava o impulso, que estava eu. Senti saudades dos meus impulsos que me fizeram viver. Deixei rolar a música que me trouxe uma saudade incerta. Algo desconhecido. Sem nome. Sem forma. Transparente. Não desejei além da noite em que estava, nada além do lugar em que estava, nada além de mim.
Quis me afundar no mar da música, dos meus impulsos, do desconhecido. De tudo aquilo que eu não me permito conhecer, do que a minha mão não me entrega. Foi quando abri os olhos, levantei da cadeira e bati de frente para o espelho. Não me vi, mas me reconheci, e era a pessoa com quem conversara antes. Descobri que ao menos era capaz de conhecer meus próprios segredos. E o que é isso na verdade? Não é nada. Tudo o que eu era, resumia-se em uma pergunta - qual a vida que você teve antes de ser você?
Tudo o que eu era, era lembrar do que eu permiti que fosse feito de mim. Mas tudo o que eu era, eu desconhecia. E assim seria. Fiz do tempo o que o tempo me permitiu com o tempo. Jamais saí no mundo, se ao menos saí de mim.
Nos entendemos, e ela me disse frases de visionários - "A vida é feita de orgulho e incosciência". Falou por mim. Alguém, além dela, falou por mim. Na incosciência estava o impulso, que estava eu. Senti saudades dos meus impulsos que me fizeram viver. Deixei rolar a música que me trouxe uma saudade incerta. Algo desconhecido. Sem nome. Sem forma. Transparente. Não desejei além da noite em que estava, nada além do lugar em que estava, nada além de mim.
Quis me afundar no mar da música, dos meus impulsos, do desconhecido. De tudo aquilo que eu não me permito conhecer, do que a minha mão não me entrega. Foi quando abri os olhos, levantei da cadeira e bati de frente para o espelho. Não me vi, mas me reconheci, e era a pessoa com quem conversara antes. Descobri que ao menos era capaz de conhecer meus próprios segredos. E o que é isso na verdade? Não é nada. Tudo o que eu era, resumia-se em uma pergunta - qual a vida que você teve antes de ser você?
Tudo o que eu era, era lembrar do que eu permiti que fosse feito de mim. Mas tudo o que eu era, eu desconhecia. E assim seria. Fiz do tempo o que o tempo me permitiu com o tempo. Jamais saí no mundo, se ao menos saí de mim.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Casamento.
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado
domingo, 29 de agosto de 2010
Não é assim.
Creio que a abstinência opcional da realidade seja a maior maneira de falsa auto-proteção que os sensíveis sociais adquirem com o passar do tempo. Ou melhor dizendo, o descaso e a deslealdade são escondidos pela carência do indivíduo.
Você acorda. Escova os seus dentes e senta-se para o café. Tudo isso pois tudo isso tem de ser feito. Afinal, todos fazem. Vai para o trabalho, e durante o caminho já fatigante, você se força a aceitar ou até mesmo gostar, de situações que apareceram na sua vida. Afinal, todos passam por isso um dia. Você empurra com a barriga o seu trabalho remunerado por si próprio, mas que até dá para pagar as contas lá de casa. E daqui seis mêses, você poderá ter trinta dias de descanso. Afinal, todos os seus amigos trabalham para isso. Mas, felizmente, hoje é sexta-feira! Tem aquela festa que a sua mulher tanto esperou, só para usar aquele vestido vermelho. E você, encontrar os seus velhos amigos, com as mesmas intenções de sempre: o nada. A festa acaba, vocês transam em casa como de costume, e segunda-feira será tudo igual novamente. Talvez, em algum desses seus trinta dias de férias, você pare para pensar. E pense que em todo momento, pensou nada. Que o seu tudo, foi nada. Que tudo não faz sentido algum. Você se permitiu. Afinal, a vida é assim, não é mesmo?
A crítica não é ao estilo de vida burguês. Ou aquele que a maioria busca. Mas sim, ao modo como se leva a vida, esteja ela como estiver. O fato de viver de olhos fechados, talvez seja para sentir menos dor. O ser humano vive em busca de métodos que façam com que a vida fique mais leve, como a religião. Pior do que essa, só a opção de se fazer inferior a verdade de si mesmo, mesmo esta não sendo uma conquista metódica.
E por fim:
"O homem é mais sensível ao desprezo que vem dos outros do que ao que vem de si mesmo."
Nietzsche
Você acorda. Escova os seus dentes e senta-se para o café. Tudo isso pois tudo isso tem de ser feito. Afinal, todos fazem. Vai para o trabalho, e durante o caminho já fatigante, você se força a aceitar ou até mesmo gostar, de situações que apareceram na sua vida. Afinal, todos passam por isso um dia. Você empurra com a barriga o seu trabalho remunerado por si próprio, mas que até dá para pagar as contas lá de casa. E daqui seis mêses, você poderá ter trinta dias de descanso. Afinal, todos os seus amigos trabalham para isso. Mas, felizmente, hoje é sexta-feira! Tem aquela festa que a sua mulher tanto esperou, só para usar aquele vestido vermelho. E você, encontrar os seus velhos amigos, com as mesmas intenções de sempre: o nada. A festa acaba, vocês transam em casa como de costume, e segunda-feira será tudo igual novamente. Talvez, em algum desses seus trinta dias de férias, você pare para pensar. E pense que em todo momento, pensou nada. Que o seu tudo, foi nada. Que tudo não faz sentido algum. Você se permitiu. Afinal, a vida é assim, não é mesmo?
A crítica não é ao estilo de vida burguês. Ou aquele que a maioria busca. Mas sim, ao modo como se leva a vida, esteja ela como estiver. O fato de viver de olhos fechados, talvez seja para sentir menos dor. O ser humano vive em busca de métodos que façam com que a vida fique mais leve, como a religião. Pior do que essa, só a opção de se fazer inferior a verdade de si mesmo, mesmo esta não sendo uma conquista metódica.
E por fim:
"O homem é mais sensível ao desprezo que vem dos outros do que ao que vem de si mesmo."
Nietzsche
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