quarta-feira, 30 de março de 2011
Céu
Já perdi a conta dos dias. Dos dias nos quais me fiz refém. Eu era refém porque neles haviam sentimentos. Haviam infinitas limitações, pois quando o homem se deixa desejar ele também se deixa cegar. Sei que não posso sair do meu corpo físico, e mesmo que saísse, jamais sairia do mundo, das suas paredes feitas de estrelas. E hoje, a minha liberdade é maior do que todas essas estrelas.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Ensaio sobre a humanização

Eu me tornava mais humano com aqueles beijos. Eu, sempre gélido, me condensando nos seus olhos sem saber como. Me encontrei no abandono de todos os abstratos e concretos que possuí desde os meus primeiros choros no colo da minha mãe. Foi a paixão que me tornou cego de mim e nós começamos a viver a três. Eu, você e aquela matéria indefinida que nos conduzia como uma encenação de Chopin.
Tornávamos então, humanos. Toda a minha construção desde os braços aninhados da minha mãe, me fizeram acreditar que a paixão fosse capaz de fazer de mim um salvador, enquanto na verdade, era a matéria indefinida, cravada entre nós, entre os beijos, os abraços e as carnes que fizeram de mim um ser, no mais expresso da palavra, humano.
Dancei valsas, encenei, lutei pelos meus ideais, e por fim, a minha paixão por você não me tirou os pés do chão, senão para sonhar. A minha realidade, a minha vida, e o meu elo, sempre estarão presos à matéria indefinida, ao meu filho - mais conhecido como amor.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Teatro Grego.
Se ela falasse. Falasse por mim, e ousasse tomar o meu protagonismo. E me entregasse seu palco e suas cortinas, o que faria eu da vida? E aceitando-na, não pelo conformismo, mas pela vontade de sabê-la. Se eu a deixasse me ser, e eu fosse a vida. Eu me possuiria, mas me possuiria em liberdade de mim. E todos os antagonistas da trama estariam libertos. Eu sendo a vida, não possuiria um fio de cabelo meu sequer, e a vida me sendo, teria a posse do meu pensamento que jamais conseguiria se codificar. Dentro dos meus pensamentos, a vida estaria presa na minha única solidão, na minha própria essência.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
De volta ao ninho.
Cheguei no meu ponto de partida e de estanque. Daqui sei que não levarei nada, no entanto, encontrei o que sempre perco. Há cordas enlaçadas, fincadas como âncora bem abaixo de uma carne, a qual gosto de chamar de coração. Fragmentos de lembranças tão raras que deixamos involuntariamente que se desfaçam em ruas antigas. Estas têm o prazer de me puxar e criar histórias. Histórias que sempre serão as mesmas, cada a qual com seus nomes. Só aqui é que conheço a minha liberdade, mesmo esta mantendo-se no paradoxo de um coração orgulhoso. A aurora voa leve na efemeridade dos segundos, e o meu ninho já não enxergo mais. Dos meus filhotes, nenhum nasceu, mas ficaram suas cascas escondidas nos galhos. Ficou a minha própria casca, mas esta não quer se decompor. Alguém continua alimentando-a, como alimenta-se a doença mais repugnante dentro de um homem indeciso. Ando por essas ruas sem ter a esperança de encontrar meu ninho. A arquitetura e o concreto frio de restos humanos sabem como me guiar. Mesmo assim, uma mente fatigada e afogada em uma emoção eterna, consegue sentir o que a vida traz. Subo seus degraus, dentro do meu lirismo entorpecente e que me tira, de alguma forma, de todo o mal. Um mal não exterior, mas o meu próprio mal, que faz os dedos buscarem o inconseqüente. Tenho medo pela primeira vez então, de ver a carne morta. Carne sem explicação nos lábios de Freud. Medo da carne do meu ninho despertar o que os meus dedos desejam. Sei que eles desejam. Abro a porta, e o cheiro queimado e amargo me faz voar. Procuro, seja o que for, mas procuro o meu antigo apoio. A boca fria e esquecida em contraponto a mente, quente e eufórica. Por quê? De joelhos peço apenas a minha sanidade e o meu corpo. Não estou preparada, não quero obrigar os meus olhos a mais nada. A luz apagou. A luz do meu mundo apagou-se. Dou-me então, de costas para o meu real. Para toda a minha vida que não foi. Nenhuma pele marcada como gado, nenhuma escrita no papel fará eu me sentir como deveria dentro da minha casca.Mas volto em mim, e escrevo. E se escrevo, é porque vivo, e disto, não existe entendimento.
Texto de 29/10/08
Texto de 29/10/08
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Prosa.
Não tenho culpa de ter nascido assim, com alma de escritor - mesmo sem nada escrever. É que escritor tem esse jeito de se engraçar na tristeza, se entranhar na dor e se encontrar nesse modo alegre de sofrer.
O que é que há, é que há alma em demasia. A alma que transborda e a gente esquece por aí, nas ruas, nas esquinas, no trem. Mas assim é que essa gente metida a dramaturgo de mesa de bar se entende, se encontra - no sorriso machucado, no cigarro auto-destrutivo, com amores baratos, beijos vendidos.
O que é que há, é que há alma em demasia. A alma que transborda e a gente esquece por aí, nas ruas, nas esquinas, no trem. Mas assim é que essa gente metida a dramaturgo de mesa de bar se entende, se encontra - no sorriso machucado, no cigarro auto-destrutivo, com amores baratos, beijos vendidos.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Vestígios

Saindo de casa tive a sensação de que tinha esquecido algo - como muitas vezes já aconteceu, não só comigo. Eu estava saindo de casa como quem saí de uma antiga vida. E é engraçado ter essa sensação com restos que deixamos no passado. É quando, pela primeira vez, usamos do abandono, de fato, sem saber o seu significado e suas intermináveis consequências.
Inocentemente, escolhi a inocência para ser a minha primeira órfã. Assim como outros vestígios meus que ficaram pelos caminhos. Hoje, sou uma má formação de mãe. Daquelas que largaram seu pedaço mais humano por aí. A minha cria restrita a passagem de ida. À deriva dos corações atentos e dos olhos dispersos.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Chuva.
"Dormiu ao relento desejando não acordar na manhã seguinte" - Essas frases que aparecem estampadas para que os nossos olhos leiam, para que os meus olhos leiam em algum momento, me fazem intrigas.
Por todos os tempos em que tudo pareceu tão sem sentido quanto a minha respiração, que eu via cada vez mais sem sentido para mim e para o resto do mundo. Eu tive a chuva como a minha companheira, a minha amante fiel, minha confidente, minha puta, durante muitas noites em que nada fazia sentido - exceto ela.
E todas essas noites eu me perguntava, até quando eu vou permitir a falta de sentido, até mesmo onde não procuro sentindo algum.
Por mais relutante que fosse respirar naquelas noites, por mais esforço que eu fizera por não deixar o meu organismo viver, não sustentar os meus póros, tampouco as minhas células com qualquer elemento que pudesse me dar vida, fazer meu coração bater mais forte e fazer eu me sentir eu, toda vez que a água respingava na minha janela, algo me dizia que talvez esse fosse o sentido das coisas.
Eu nunca me deixei viver, de fato. Em cada relutância que eu tinha comigo mesma, em cada esquivada do meu espelho pessoal, cada desculpa que eu dava para mim em não aceitar o que eu me permiti tornar, eu fazia da minha existência a circunstância mais sem sentido que eu já pudera sentir.
E foi na calma - que só a chuva soube me dar - que eu aprendi a empilhar meus medos. E sobretudo, a raiva de mim. Aprendi o sentido de viver o que se é, e não o que se pode ser.
Por todos os tempos em que tudo pareceu tão sem sentido quanto a minha respiração, que eu via cada vez mais sem sentido para mim e para o resto do mundo. Eu tive a chuva como a minha companheira, a minha amante fiel, minha confidente, minha puta, durante muitas noites em que nada fazia sentido - exceto ela.
E todas essas noites eu me perguntava, até quando eu vou permitir a falta de sentido, até mesmo onde não procuro sentindo algum.
Por mais relutante que fosse respirar naquelas noites, por mais esforço que eu fizera por não deixar o meu organismo viver, não sustentar os meus póros, tampouco as minhas células com qualquer elemento que pudesse me dar vida, fazer meu coração bater mais forte e fazer eu me sentir eu, toda vez que a água respingava na minha janela, algo me dizia que talvez esse fosse o sentido das coisas.
Eu nunca me deixei viver, de fato. Em cada relutância que eu tinha comigo mesma, em cada esquivada do meu espelho pessoal, cada desculpa que eu dava para mim em não aceitar o que eu me permiti tornar, eu fazia da minha existência a circunstância mais sem sentido que eu já pudera sentir.
E foi na calma - que só a chuva soube me dar - que eu aprendi a empilhar meus medos. E sobretudo, a raiva de mim. Aprendi o sentido de viver o que se é, e não o que se pode ser.
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